Com métodos anticoncepcionais modernos, mulher se tornou dona de seu próprio corpo – Notícias

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Nas últimas décadas, as mulheres foram muito favorecidas pelos avanços na medicina reprodutiva, que desenvolve métodos anticoncepcionais cada vez mais modernos. Com a pílula, o DIU (dispositivo intrauterino) e outras alternativas à disposição, a mulher hoje tem chances de evitar uma gravidez inesperada e ainda tem a possibilidade de planejar carreira e estudos antes da maternidade.

No Brasil, os números falam por si: a taxa de fecundidade no País era de 2,4 filhos por mulher no ano 2000. Em 2015, esse número já havia caído para 1,7 — a queda é de quase 30%, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelam que

O ginecologista e especialista em reprodução humana Márcio Coslovsky, da clínica Primordia Medicina Reprodutiva, do Rio de Janeiro (RJ), vai ainda mais longe. “Na década de 1960, quando a primeira versão da pílula anticoncepcional foi lançada, a média nacional era de cerca de seis filhos por mulher”, diz.

A modernização dos métodos anticoncepcionais tem o poder de transformar tanto a saúde como o dia a dia da população feminina destaca Juliana Ditz, ginecologista da Aliança Instituto de Oncologia, clínica localizada em Brasília (DF). 

— A mulher ficou mais dona do seu próprio corpo. Além disso, os métodos com hormônios permitiram que ela se livrasse de alguns dos desconfortos causados pela menstruação, atenuando problemas como endometriose, cisto de ovário — que causa hemorragias —, ou cólicas incapacitantes, que impedem a pessoa de trabalhar.

Pílulas mais modernas

Um dos métodos que mais evoluiu foi a famosa pílula — que, de acordo com os médicos, ainda é a primeira opção à qual as mulheres recorrem para evitar a gravidez. O método tem eficácia comprovada de 99,8% e o preço da cartela é um dos grandes atrativos: nas farmácias é possível encontrar opções por pouco mais de R$ 15, que evitam a concepção ao longo de um mês; o SUS (Sistema Único de Saúde), por sua vez, oferece o medicamento de graça às pacientes. 

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Os especialistas afirmam que hoje a maioria das pílulas disponíveis no mercado é feita à base de substâncias que imitam o estrogênio e a progesterona, hormônios presentes no organismo feminino. As doses hormonais, entretanto, são bem menores do que cinquenta anos atrás.

— As baixas dosagens de hormônios diminuem muito os efeitos colaterais. Quanto menos hormônio se ingere — desde que a quantidade seja eficaz para bloquear a ovulação e tornar a anticoncepção mais segura —, melhor para quem está usando [a pílula]. Você vai ter menos inchação, menos alterações metabólicas e por aí vai.

Na vida prática das mulheres, os ganhos também foram muitos: a pílula moderna regula o ciclo menstrual (a pessoa passa a menstruar sempre no mesmo período do mês), diminui o fluxo de sangue na menstruação e ameniza os efeitos da TPM (tensão pré-menstrual), afirma a médica.

— Isso acontece porque, ao longo do mês, o medicamento mantém as mesmas doses de estrogênio e progesterona no organismo. Geralmente, são as oscilações nos níveis desses hormônios que geram as mudanças de humor.

Nos últimos cinco anos, o mercado passou a oferecer a chamada pílula trifásica, completa o médico.

— Esse tipo de pílula concentra um pouco de estrógeno nos comprimidos da primeira metade da cartela, aumenta a dosagem do hormônio nos comprimidos do meio da cartela e termina com comprimidos de progesterona. O objetivo é imitar o ciclo fisiológico e a variação dos hormônios que ocorrem naturalmente no corpo da mulher.

O problema, de acordo com ele, é que muitas das usuárias têm dificuldade em se adaptar ao uso do medicamento.

— Uma pílula comum, se você esquece de tomar, no dia seguinte você ingere dois comprimidos e o problema está sanado. Se você esquece de tomar essa pílula trifásica, dependendo do estágio da cartela em que você esqueceu, já não adianta mais ingerir duas no dia seguinte, você já atrapalhou o ciclo.

De qualquer forma, Juliana Ditz lembra que a oferta de pílulas e outras alternativas anticoncepcionais no mercado é grande — o importante é sempre consultar um ginecologista antes de encontrar a opção à qual você melhor se adequa.

— Tem paciente que não quer a obrigação de lembrar de tomar pílula todo dia, há pessoas que sofrem com os efeitos gástricos do uso da pílula, como gastrite, azia, algum tipo de desconforto na digestão. Desta forma, muita gente prefere recorrer a diferentes opções.

DIU diferente 

Outro dos métodos contraceptivos já consagrados que ganhou uma versão mais moderna nos últimos anos é o DIU — ou dispositivo intrauterino. Tradicionalmente, o DIU é uma pequena peça de plástico colocada dentro do útero da mulher. Uma de suas partes é envolta em fios de cobre — que têm efeito espermicida e impedem que haja a fecundação.

Hoje em dia, entretanto, a medicina já disponibiliza DIUs feitos não à base de cobre, mas de um hormônio sintético chamado levonorgestrel. A substância funciona como um anticoncepcional e é liberada diretamente na corrente sanguínea da paciente, segundo explica o especialista Coslovsky. As vantagens são várias.

— O DIU com hormônio, além de tornar o organismo da mulher hostil aos espermatozoides, não deixa a parte de dentro do útero, o endométrio, ficar espessa. Como ela não fica espessa, ela não descama. Então, uma das coisas que acontece a médio prazo depois da colocação do dispositivo é a diminuição do fluxo da menstruação, até parar.

O especialista ainda afirma que de 30% a 40% das mulheres que usam o DIU com hormônio param de menstruar ao fim do primeiro ano de uso. Ao fim do segundo ano, esse índice sobe para até 60%. “Mesmo as que menstruam, menstruam muito pouco, por apenas um dia”, reforça. O médico ainda ressalta que, estatisticamente falando, o DIU com hormônio é o método contraceptivo mais seguro de todos — com risco de gravidez inferior 0,05%.

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O preço, entretanto, é salgado: aproximadamente R$ 800. Muitos dos profissionais ainda cobram valores extras para a inserção da peça no interior do útero — procedimento que deve ser feito em consultório médico. Já dentro do corpo da mulher, o DIU com hormônio se mantém fazendo efeito por até cinco anos. Para quem não estiver disposto a gastar, o DIU tradicional é oferecido gratuitamente pelo SUS, que também disponibiliza consultas para a inserção intrauterina. 

De acordo com Juliana Ditz, a interrupção da menstruação não deve ser encarada como problema.

— Pelo uso de qualquer tipo de método contraceptivo, não ocorre uma ovulação ou um ciclo menstrual normal. O sangramento passa a ser mais uma questão social do que biológica, já que, de todas as formas, a mulher recebe hormônios e é afetada pela medicação. Não menstruar acaba sendo mais vantajoso, porque diminui esses desconfortos da cólica, das oscilações de humor, etc. 

Implante sob a pele

Na mesma linha do dispositivo intrauterino, ganha destaque o implante subcutâneo, que também apresenta eficácia superior a 99%. Trata-se de uma peça que se assemelha a um pequeno bastão, feito à base de progesterona. Ele é inserido sob a pele da mulher — geralmente na linha do cotovelo — em um procedimento realizado também no consultório médico. O preço do produto, fora a colocação, varia entre R$ 800 e R$ 1000, e ainda não há disponibilidade no SUS. O bastonete libera o hormônio diretamente no sangue da pessoa, diz a ginecologista Flavia Fairbanks, que é pós-graduada pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) nas áreas de Endometriose e Sexualidade Humana.

— Os implantes subcutâneos disponíveis na farmácia têm duração de três anos e independem do comportamento da usuária para ter sua eficácia garantida. O inconveniente é que, como eles são feitos somente à base de progesterona, não promovem um controle tão bom do ciclo menstrual quanto os métodos anticoncepcionais de hormônios combinados. O que se observa, até de acordo com os números indicados na bula do medicamento, é que de 15% a 20% das pacientes apresentam escapes menstruais e, muitas vezes, acabam optando pela descontinuidade do uso do implante. 

Do anel ao adesivo

Fora o DIU com hormônio e o implante subcutâneo, também foram lançados recentemente dois métodos contraceptivos que vêm ganhando cada vez mais adeptas: o adesivo transdérmico e o anel vaginal. São opções intermediárias, que não exigem o compromisso de ingerir um comprimido todo dia, mas também não liberam hormônios ininterruptamente no corpo de quem usa por anos a fio.

O risco de gravidez, tanto para o adesivo como o anel, é inferior a 1%. Com preço entre R$ 50 e R$ 80, ambos estão disponíveis somente na rede privada de saúde. Eles são feitos de hormônios femininos e funcionam como “pílulas disfarçadas”, nas palavras de Márcio Coslovsky — com a diferença de que liberam as substâncias contraceptivas diretamente na corrente sanguínea da paciente.

— A vantagem é que o processo de absorção dos medicamentos não passa pelo trato digestivo. Isso elimina etapas pelas quais passa a pílula e traz alguns benefícios de longo prazo. Controle de triglicerídeos, controle de açúcar, controle de colesterol são alguns deles.

O adesivo transdérmico, como o nome sugere, é uma espécie de decalque que a paciente cola geralmente no tronco ou nos braços e tem os hormônios absorvidos pela pele durante uma semana. Depois disso, o produto deve ser substituído por um novo. A substituição é feita ao longo de três semanas seguidas — na quarta, a mulher passa por um período de “descanso”, mas continua protegida de gestações indesejadas. No Brasil, entretanto, o método ainda esbarra em questões como o clima, comenta o ginecologista.

— O adesivo faz sucesso em países frios e ainda é relativamente pouco usado em países tropicais, porque as pessoas transpiram, vão à praia, vão à piscina e o adesivo fica exposto. É uma questão de adaptação.

A médica Juliana, por sua vez, pondera que a indicação do adesivo depende também do peso da paciente.

— É um método não recomendado para pessoas obesas, porque a absorção do hormônio pode ser prejudicada quando a paciente tem um tecido adiposo muito extenso.

Já o anel vaginal consiste em um anel de silicone que a mulher pode colocar em casa por meio da vagina. Ele deve permanecer no interior do corpo por três semanas, diz o ginecologista da Clínica Primordia.

— Após esse período, a paciente tem que lembrar de retirar — e ficar sem o anel durante uma semana — e, em seguida, colocar outro. Nessa semana em que a mulher fica sem, ela menstrua, mas pode ter relações sexuais sem medo. Os hormônios continuam fazendo efeito.

As opções, como é possível perceber, não faltam. O importante é estar sempre informada às novas alternativas, conclui Coslovsky.

— Quanto mais educada (em termos de estudo) é a mulher, mais facilmente ela busca um método anticoncepcional e, na vida prática, ela vai acabar trabalhando e estudando mais e tendo menos filhos, ou sendo mãe mais tarde.



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