G1 – Cientista pioneira e reitora da UFSCar falam do papel feminino na educação

G1 – Cientista pioneira e reitora da UFSCar falam do papel feminino na educação
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Wanda foi eleita em 2016  (Foto: UFSCar/ Divulgação)Wanda Hoffmann foi eleita reitora da UFSCar em 2016 (Foto: UFSCar/Divulgação)

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o G1 conversou com duas pesquisadoras que estão fazendo história: Wanda Hoffmann, primeira reitora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e Yvonne Premiatto Mascarenhas, anunciada na terça-feira (7) como uma das 12 cientistas que receberão o IUPAC-2017 Distinguished Women in Chemistry or Chemical Engineering Awards, prêmio criado para reconhecer e promover o trabalho de químicas e engenheiras químicas em todo o mundo.

Com percursos diferentes, as duas vêem mudanças na sociedade, mas afirmam que é possível fazer mais para garantir a entrada e a permanência das mulheres na área acadêmica.

Wanda pretende combater os casos de assédio na instituição (Foto: UFSCar/ Divulgação)Wanda pretende combater os casos de assédio
na instituição (Foto: UFSCar/Divulgação)

Primeira reitora
Após 48 anos de fundação (1968), a UFSCar elegeu sua primeira reitora no fim de 2016. Para a escolhida, o resultado da eleição mostrou que a universidade está preparada para analisar lideranças por suas capacidades, e não pela sua identidade de gênero, origem étnica, partidária ou cultura.

“A discriminação de gênero pode ocorrer de forma muito sutil. Muitas vezes, não vem com um ataque direto, mas com uma cobrança maior. Nossa sociedade não tolera mais discriminação e desigualdade. O momento atual é de uma sociedade com oportunidades iguais para todos, uma sociedade com pessoas de diferentes formações, etnias e culturas colaborando em seu ambiente de trabalho”.

Questionada sobre as denúncias de casos de assédio e abuso sexual dentro da instituição, a reitora disse que vai lutar contra qualquer forma de abuso e discriminação.

“Pretendo fortalecer os instrumentos para coibir essas barbaridades, dando transparência e com rigorosa apuração”, afirmou.

Carreira
Professora doutora, Wanda é graduada em engenharia metalúrgica pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e desde 1989 está na Federal de São Carlos, onde fez mestrado e doutorado em engenharia de materiais.

Atuou como professora no Departamento de Ciência da Informação, foi coordenadora de curso, chefe de departamento e, por 8 anos, diretora do Centro de Educação e Ciências Humanas.

Nossa sociedade não tolera
mais discriminação e
desigualdade. O momento
atual é de uma sociedade
com oportunidades
iguais para todos”

Wanda Hoffmann, reitora da UFSCar

“Nesse período, ajudei a construir cursos, projetos e unidades, como a pós-graduação em ciência, tecnologia e sociedade, o bacharelado em sistemas de informação, e ajudei a estruturar pesquisas nas áreas de informação, ciência, tecnologia, inovação e sociedade. E a maior realização nesse período foi ganhar uma legião de amigos”, contou.

A reitora relembrou figuras femininas da família e uma professora do ginásio que foram importantes para sua formação e carreira. A escritora Cora Coralina também foi uma fonte de inspiração.

“Ouvi uma entrevista dela no início da década de 80. Ela já tinha mais de 90 anos na época. A entrevista me marcou e me motivou a ler e refletir sobre seus escritos. Um dos textos que inspiram meu dia a dia é: “Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir… O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada”.

Yvonne é co-fundadora do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) (Foto: Raquel Baes/ G1)Yvonne é co-fundadora do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) (Foto: Raquel Baes/G1)

Mulheres na física
Primeira mulher a ocupar uma cadeira acadêmica no Departamento de Física da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), em 1956, e uma das pioneiras na fundação do então Instituto de Química e Física de São Carlos (IFQSC), em 1971, posteriormente Instituto de  Física de São Carlos (IFSC), Yvonne Premiatto Mascarenhas, de 85 anos, contou ao G1 que seu amor pela ciência nasceu quando ainda estava no ensino fundamental.

Um professor apresentou a química, enquanto uma amiga se interessou por física. Foi aí que nasceu a paixão pelas duas áreas. Segundo ela, a família a estimulou a cursar uma faculdade. O pai fazia questão que ela continuasse os estudos antes de enfrentar o mercado de trabalho e, em 1953, ela se formou bacharel em química pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, obteve o título de bacharel em física pela Universidade do Estado da Guanabara, atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Trajetória na USP
A trajetória da professora na USP de São Carlos começou na EESC. Como havia falta de professores de física, o diretor da instituição na época, Theodoreto de Arruda Souto, convidou Yvonne e o ex-marido, Sérgio Mascarenhas, para trabalharem na universidade. “Foi uma questão de acaso e oportunidade”.

Em sua trajetória acadêmica, orientou inúmeras dissertações de mestrado e teses de doutorado, tendo publicado mais de 150 artigos em revistas indexadas sobre cristalografia, estudo dos cristais e de suas estruturas e propriedades. Membro titular da Academia Brasileira de Ciências desde 2001, foi agraciada com dezenas de prêmios e títulos e, atualmente, coordena a Agência Multimídia de Difusão Científica e Educacional do Instituto de Estudos Avançados (IEA) através do Portal Ciência Web.

A professora Yvonne contou ser admiradora do cientista Albert Einstein (Foto: Raquel Baes/ G1)A professora Yvonne contou ser admiradora do
cientista Albert Einstein (Foto: Raquel Baes/ G1)

Mulheres no campo científico
Para a professora, há uma diferença na criação das meninas e isso repercute no mercado de trabalho.

Enquanto os garotos são criados para se arriscarem mais, a mulher assume o papel de submissão e perfeição e a falta de estímulo ao risco e competitividade vem desde a infância.

“Os brinquedos dos meninos fomentam criatividade e risco, e os das meninas ensinam a servidão e a perfeição”, afirmou.

Ela usou o campo das ciências da computação como exemplo. “A mulher é educada para perfeição e alguns campos, como, por exemplo, da computação, exigem o risco, mas ela foge do desafio, pois não admite cometer erros”.

A situação da mulher é tão
grave nesse ponto que precisaríamos de uma atenção especial, deveriam existir programas educacionais
para estimular as meninas
a se arriscarem”

Yvonne Mascarenhas, pesquisadora

Sobre a solução para essa questão, Yvonne defende a criação de programas especiais. “A situação da mulher é tão grave nesse ponto que precisaríamos de uma atenção especial, deveriam existir programas educacionais para estimular as meninas a se arriscarem. A pessoa que tem medo de cometer erros não cria coisas novas, porque para criar é preciso cometê-los”, disse.

Mercado de trabalho
Para a professora, o cenário científico não só tem abertura, como também necessita absorver mulheres e a procura pela chamadas “ciências duras”, como as engenharias, está crescendo.

“Dentro das engenharias estão entrando mais mulheres. Algumas vezes, elas saem para o mercado e depois voltam à universidade para fazer pós já com uma experiência profissional. Elas têm esse desejo. Acho que o mercado atrai mais. E, lá fora, você vê mulheres ocupando posições de liderança, ao passo que na vida acadêmica isso ocorre menos”, explicou.

Yvonne atualmente coordena a agência de difusão científica Ciência Web (Foto: Raquel Baes/ G1)Yvonne atualmente coordena a agência de difusão
científica Ciência Web (Foto: Raquel Baes/G1)

Durante a entrevista, Yvonne ressaltou que o cenário acadêmico também está mudando em outro aspecto.

“Antes, a academia era como uma torre de marfim e havia preconceito com a parceria com as empresas. Hoje em dia, essa parceria é uma condição, dá um destaque, porque você vê que a pesquisa está sendo aplicada e melhorando o mercado de trabalho do país”, disse a professora, que acredita que bons exemplos estimulam. “Eu acredito muito que se aprende pelo exemplo, quando a pessoa quer, um bom exemplo ajuda muito”, concluiu.



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