Júpiter diferentão | G1 – Ciência e Saúde

Júpiter diferentão | G1 – Ciência e Saúde
Rate this post


Júpiter

 

Nesta quinta-feira (25), a NASA fez uma coletiva de imprensa com várias autoridades da missão Juno, aquela sonda que está orbitando Júpiter desde julho do ano passado. Entre eles estava Scott Bolton, líder da missão, para anunciar os primeiros resultados científicos com os dados acumulados nos 10 meses da missão. E eles surpreenderam a equipe.

 
Que Júpiter tem um campo magnético, OK, nada de novo. Que o campo magnético de Júpiter é mais intenso que o da Terra, também nenhuma novidade. Mas a surpresa veio quando mediram sua intensidade: ele é muito mais intenso do que se imaginava antes, baseado em medidas das sondas Pioneer e Voyager e também muito assimétrico, com fortes variações a depender da posição que se mede. O campo magnético de Júpiter é mais de 10 vezes mais intenso do que o campo magnético da Terra e, surpresa de novo, está em expansão! Sim, a magnetosfera, a envoltória magnética que blinda o planeta das partículas solares. O mesmo acontece com a Terra, nossa magnetosfera blinda o planeta das partículas do vento solar direcionando-as para os polos. Lá, quando desaceleram, produzem as auroras.
 

Você disse aurora? Também trabalhamos com auroras em Júpiter! Como era de se esperar, muito maiores e mais intensas que na Terra, mas com um detalhe a mais. Ou talvez quatro detalhes, as quatro luas galileanas interagem com as auroras! Sim, ao que parece as luas alteram o campo magnético joviano quando percorrem suas órbitas e, por consequência, alteram as auroras.
 

Outro achado intrigante é em relação ao núcleo de Júpiter. Os estudiosos do planeta gigante sempre defenderam duas hipóteses, a primeira que Júpiter teria um núcleo sólido compacto, composto por material rochoso com o dobro da massa da Terra, no máximo. A segunda hipótese é que nem sequer exista um núcleo.
 

O que os dados preliminares da Juno indicam?
 

Que existe um núcleo disperso e que ele se estende por quase metade do diâmetro do planeta. Disperso como? Ele seria uma espécie de “terra líquida” misturada com os gases atmosféricos liquefeitos pela imensa pressão de Júpiter. Na região esperada para haver um núcleo rochoso, a pressão deve chegar a 40 milhões de vezes a pressão atmosférica ao nível do mar na Terra. Com pressões dessa magnitude os gases são comprimidos a tal ponto de se mudarem de fase e passam a um estado pastoso. O mesmo deve acontecer com as rochas, que superaquecidas, se transformam nesse estado bizarro que se mistura com os gases liquefeitos.
 

Esse é o resultado mais surpreendente da primeira leva de publicações, mas não deve ser levado a ferro e fogo ainda. Segundo Bolton, as conclusões preliminares são baseadas em poucos dados, que podem dar margem a interpretações confusas, como parece ser o caso. Muito em breve, com uma base de dados mais consistente será possível dar uma resposta mais robusta, confirmando um dos cenários possíveis.
 

Outros resultados da meteorologia joviana mostram que a atmosfera de Júpiter se comporta de modo muito parecido com a atmosfera da Terra, obviamente guardadas as devidas proporções. Células convectivas são muito parecidas em ambos os planetas, mas enquanto na Terra a circulação de ventos mal chega a 10 km de altura, em Júpiter foram observadas nuvens emergindo de uma profundidade de 350 km. O que não significa que não possa ter casos em que camadas ainda mais profundas aflorem. Apenas que os instrumentos de microondas da Juno não conseguem enxergar mais fundo que isso.
 

Os ciclones vistos pela JunoCam, a câmera instalada após pressão popular, têm tamanhos comparáveis ao tamanho da Terra. Diferente ao que se vê em Saturno, não há um grande hexágono de nuvens, ordenadas segundo o fluxo atmosférico.
 

Os resultados vieram dos primeiros sobrevoos efetuados de um polo a outro de Júpiter. Os sobrevoos duram 2 horas e acontecem a cada 53 dias. Dá para perceber que em mais da 99% do tempo a Juno fica muito longe de Júpiter. A sonda ficou estacionada na sua órbita de inserção, ou seja, aquela órbita inicial que ela adquiriu ao chegar ao planeta. Ela é muito mais ovalada que a órbita de ciência, que a faria dar um sobrevoo a cada 14 dias, aproximadamente. Quando os técnicos da missão preparavam a manobra de correção da órbita perceberam uma falha numa das válvulas que controlam o hélio líquido que flui pelos foguetes da nave. Na verdade a válvula funcionou, mas demorou muito mais que o previsto para fechar. A investigação da equipe não encontrou nada muito óbvio que pudesse ser a causa do problema e então decidiu não tentar a manobra. O receio é que se o problema persistisse a Juno poderia se desestabilizar e mergulhar na atmosfera de Júpiter. Manter a sonda nessa órbita de transferência não traz nenhum prejuízo científico, apenas faz com que os sobrevoos ocorram a cada 53 dias e não a cada 2 semanas.
 

A Juno já completou 5 órbitas e pelos planos originais ainda restam mais 31, ou seja, estamos apenas começando a desvendar Júpiter!



Source link

Add Comment