Não são aliens! | G1 – Ciência e Saúde

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 Ilustração representa a estrela KIC 8462852

Você se lembra daquela estrela misteriosa descoberta pelo satélite Kepler que apresentava curvas de luz esquisitas que desafiavam qualquer explicação? É a KIC 8462852, também conhecida com ‘estrela da Tabby’, já que a primeira pessoa a falar sobre ela foi a astrônoma Tabetha Boyajian da Universidade Estadual da Lousiana. Eu falei sobre ela aqui neste post,  quando começaram as especulações a respeito.

 

Na verdade, a estrela foi descoberta do catálogo de objetos de interesse do Kepler por uma iniciativa de astronomia cidadã, em que entusiastas de astronomia acessam as curvas de luz do arquivo do telescópio para identificar estrelas com potencial de abrigar planetas. Depois disso um astrônomo vasculha as curvas selecionadas e parte para um estudo mais detalhado. Foi assim com essa estrela que mostrava curvas de luz muito esquisitas.

 

Os dados do Kepler mostravam que havia diminuição do brilho da estrela, mas, além de não ser periódica, eram muito mais intensas do que se fosse produzida por planetas transitando a estrela. Além disso, o brilho da estrela, a longo prazo, estava diminuindo, contrário ao que se espera de uma estrela que aumenta de brilho conforme envelhece. Mesmo assim, esse comportamento é esperado ao longo de milhares de anos e não apenas em um século.

 

Várias hipóteses foram propostas, mas nenhuma era satisfatória pois não dava conta de explicar todas as características observadas. Daí surgiu uma ideia interessante, se uma civilização avançada estivesse construindo uma mega estrutura ao redor da estrela para aproveitar o máximo de sua energia, o comportamento das curvas de luz seria mais ou menos aquilo observado pelo Kepler. Pense numa gigantesca armação de vários painéis solares distribuídos ao redor da estrela, uma esfera de Dyson em construção, por exemplo. Como ela não está completamente fechada, a luz escapa pelos vãos, mas cada vez que uma parte da estrutura fica entre nós e a estrela, a luz dela diminui, acontecendo apenas de vez em quando, sem periodicidade definida. Ao longo dos anos, como a estrutura está sendo completada aos poucos, quem está longe acaba percebendo uma diminuição gradual do brilho da estrela. Faz sentido.

 

Mas é claro que só isso não basta para fechar o diagnóstico, assim um grande esforço observacional foi promovido por Boyajian em vários telescópios no mundo todo, inclusive os rádio-telescópios do projeto de busca por inteligência extraterrestre, que responde pela sigla SETI. A campanha durou um ano e meio e foi financiada por uma iniciativa de crowdfunding, em que os recursos conseguidos foram usados no aluguel de telescópios em diversos observatórios.  Com esse esforço todo a equipe conseguiu monitorar a estrela praticamente todas as noites desse período de modo contínuo em pelo menos um telescópio. Os primeiros resultados da campanha foram publicados nesta quarta-feira (3). E a conclusão?

 

Não são aliens.

 

O monitoramento contínuo de KIC 8462852 mostrou de novo vários episódios de diminuição de brilho, um deles até com uma leve indicação de ser periódico. Boyajian usou vários telescópios que observaram em diversos filtros diferentes, obtendo as curvas de luz em cores diferentes, coisa que o Kepler não faz, pois seu telescópio não tem múltiplos filtros. Com esses dados, ficou bem claro que a luz da estrela se comporta diferente dependendo do tipo de filtro usado, ou seja, tem uma dependência com a cor da luz da estrela. O que se verifica é que a diminuição da luz é mais acentuada nas cores azuis do que nas cores vermelhas. Em termos simples, o brilho da estrela diminui bastante na cor azul, mas diminui pouco na cor vermelha.

 

E o que isso ajuda na explicação? Muita coisa.

 

Esse é justamente o comportamento esperado para absorção de luz por poeira. Esse tipo de dependência na absorção de luz com a cor é um fato conhecido há décadas, mas como o Kepler não tinha como investigar isso, a questão tinha ficado em aberto até agora. Além de apontar um forte suspeito, essa dependência com a cor descarta o outro suspeito: as mega estruturas. Se fosse o caso de a luz diminuir porque uma parte da estrutura a bloqueasse, mesmo que parcialmente, não poderia haver nenhuma dependência com a cor. A estrutura barra todas as cores por igual. Então, nada de esfera de Dyson, ou qualquer outra estrutura.

 

Só que a questão ainda não está fechada. Fazendo simulações para se descobrir que tipo de poeira poderia ser, Boyajian e sua equipe chegaram à conclusão de que deve haver dois tipos de poeira diferentes, vindos de processos diferentes. Por exemplo, um dos tipos seria composto pela mesma poeira que se aglomera para formar planetas. Já o outro tipo seria originário da destruição de planetas ou cometas. Dá para imaginar um sistema que tenha evoluído o suficiente para formar pequenos corpos rochosos que tenham se chocado formando um monte de destroços e também conserve um pouco de sua poeira primordial. Mas tem outro ingrediente, a poeira precisa ser muito mais fina do que a poeira típica do meio interestelar, pois de outra maneira a própria estrela já a teria dissipado através do seu vento estelar.

 

Fica claro que os mistérios da estrela da Tabby estão mais relacionados à presença de poeira do que a uma mega estrutura, mas ainda assim vários pontos ainda estão em aberto. Mesmo a hipótese usando poeira exige muitos ajustes para explicar o cenário geral. Por exemplo, um dos “apagões” da estrela, que parece ter se repetido durante as observações, poderia ter sido causado pela poeira originária da colisão de planetas. Como ela permanece em órbita da estrela, os apagões vão se repetir periodicamente. Só que não há registros anteriores desse apagão nos dados do Kepler, ou seja, para isso ser verdade a colisão deve ter ocorrido justamente na hora em que estávamos observando a estrela!

 

 

A estrela da Tabby ainda tem muitos segredos e ela está aí mostrando que a gente tem muito ainda que aprender. As observações ainda vão continuar por um bom tempo, pois apenas um monitoramento a longo prazo poderá dizer sobre enxames de cometas ou colisão de planetas, mas não foi dessa vez que a gente se deparou com uma evidência de inteligência avançada em nossa galáxia.



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